VIVÊNCIA NA RESERVA TÉCNICA DE MARIANA: FOTOGRAFIA TÉCNICA DAS OBRAS RESGATADAS NA TRAGÉDIA DE BENTO RODRIGUES

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Resumo

O rompimento da barragem de Fundão, em 5 de novembro de 2015, no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, Minas Gerais, representou um marco trágico na história brasileira contemporânea. Esse desastre provocou uma das maiores catástrofes socioambientais do Brasil, impactando o meio ambiente, a população local e também o patrimônio cultural da região. Dentre os inúmeros danos, destacam-se os prejuízos ao acervo de obras sacras e outros elementos materiais dos séculos XVII e XVIII, que foram soterrados pela lama, convertendo o território em um sítio arqueológico involuntário. Em resposta à tragédia, foi criada a Fundação Renova, responsável por gerir ações de reparação como a organização de uma reserva técnica destinada ao acolhimento, tratamento e a conservação emergencial dos bens resgatados. Esse artigo apresenta um relato de experiência sobre o processo de documentação fotográfica técnica no interior dessa reserva, refletindo sobre sua importância para a preservação do patrimônio, a reconstrução simbólica e as possibilidades de uso educativo e turístico dos registros produzidos. O objetivo central do estudo é refletir sobre o papel da fotografia técnica como instrumento de preservação e como ela pode contribuir para a valorização do patrimônio em situações de emergência. O artigo também busca discutir como as fotografias resultantes podem ser utilizadas como instrumentos para práticas de turismo de memória, musealização participativa e educação patrimonial. A análise é sustentada por referenciais teóricos que tratam da Documentação Científica por Imagem de bens culturais, da compreensão do patrimônio enquanto mobilizador de afetos, identidades e memórias, e das práticas comunitárias e educativas no campo da museologia social e do turismo cultural. O procedimento metodológico adotado foi o relato de experiência, privilegiando a sistematização de vivências profissionais com fins científicos, a partir da documentação de aproximadamente mil e duzentas peças resgatadas. Durante três meses, atuou-se em uma estação fotográfica na própria reserva técnica, equipada com câmera digital, iluminação artificial, fundo infinito branco e monitor calibrado para tratamento das imagens. A ausência inicial da cartela de referência cromática foi um dos principais desafios enfrentados, comprometendo a precisão na representação das cores e indicando a necessidade de um planejamento técnico rigoroso. Entre os principais resultados, destaca-se a viabilidade de uso das imagens para exposições, acervos virtuais, materiais didáticos e ações de turismo de memória voltadas à valorização e à participação das comunidades atingidas. As fotografias permitiram a visualização e a interpretação dos bens mesmo em condições que inviabilizavam sua exposição física. A produção imagética tornou-se suporte para práticas de musealização digital, além de iniciativas de turismo comunitário que valorizam a escuta, a memória local e a reconstrução social pós-desastre. Como consideração final, destaca-se que a fotografia técnica, quando realizada com rigor metodológico, constitui uma poderosa ferramenta de preservação e resistência simbólica diante da perda. A experiência também expôs fragilidades operacionais das ações de reparação, reforçando a necessidade de protocolos claros, recursos adequados e valorização dos profissionais envolvidos em processos de emergência patrimonial.


Palavras-chave: Bento Rodrigues; Documentação científica; Fotografia técnica; Patrimônio cultural; Turismo de memória.

Biografia do Autor

  • Danielle Luce Cardoso, Universidade Federal de Ouro Preto

    Bacharel em Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis, graduada pela Escola de Belas Artes da UFMG com trabalho de pesquisa relacionado à área de Documentação Fotográfica de Bens Culturais Utilizando Luz Visível. Trabalha como colaboradora no Laboratório de Documentação Científica por Imagem - iLAB, na Escola de Belas Artes e é integrante do Grupo de Pesquisa no CNPq: Imagem Científica, liderado pelo Prof. Dr. Alexandre Cruz Leão. Mestranda no Programa de Pós-graduação em Turismo e Patrimônio da Universidade Federal de Ouro Preto.

  • Marina Furtado Gonçalves, Universidade Federal da Bahia

    Doutora em História pela Universidade Federal de Minas Gerais na linha de pesquisa História Social da Cultura. Mestre em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais (2015) na área de Preservação do Patrimônio/Arte e Tecnologia da Imagem. É bacharel em Museologia pelo Claretiano Centro Universitário (2025), bacharel em Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis pela Universidade Federal de Minas Gerais (2012) e bacharel em Turismo pela Universidade Federal de Minas Gerais (2006). Realizou pós-doutorado em Química aplicada à preservação do patrimônio documental pela Universidade Federal de Minas Gerais (2024). Atualmente é professora junto ao Departamento de Museologia da Universidade Federal da Bahia e professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Turismo e Patrimônio da Universidade Federal de Ouro Preto. Integra os seguintes grupos de pesquisa: vice-líder do Grupo de Estudos em Documentação Museológica (GEDOM-UFBA), GESTO: Elementos Materiais da Cultura e Patrimônio (UFMG) e Imagem e Preservação (UFMG). Atua na área interdisciplinar com as temáticas de conservação-restauração de bens culturais, análise físico-química, documentação de acervos, conservação preventiva, patrimônio e turismo.

  • Alexandre Cruz Leão, Universidade Federal de Minas Gerais

    Professor Associado de Fotografia do Departamento de Fotografia e Cinema da Escola de Belas Artes da UFMG. Pós-doutor (professor visitante) pela Universidade de Leeds - Escola de Design - Ciência das cores (2018-2019), Doutor em Artes pela Escola de Belas Artes (EBA) da Universidade Federal de Minas Gerais (2006-2011) com ênfase em Tecnologia da Imagem, Mestre em Artes Visuais (2003-2005) pela mesma instituição, Graduado em Engenharia Industrial mecânica pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (1993). Atua profissionalmente e coordena projetos em fotografia, digitalização, gerenciamento de cores para imagens digitais, documentação científica por imagem de bens culturais, fotografia multiespectral, reprodução de cores por dispositivos digitais, colorimetria aplicada e atividades correlatas. Coordena projetos de extensão pela UFMG na área de imagens digitais e fotografia técnica e científica. Atuou como professor convidado da ACADEPOL - Academia de Polícia Civil de Minas Gerais na área de fotografia criminal com enfoque na documentação de interesse policial. Na área de documentação científica de bens culturais, utiliza luz visível, ultravioleta, infravermelho, RTI, imagens multiespectrais e outras técnicas. Membro do ICOM (International Council of Museums), da IST (Society for Imaging Science and Technology), da ANTECIPA (Associação Nacional de Pesquisa em Tecnologia e Ciência do Patrimônio), da ProCor (Associação ProCor do Brasil) e parceiro do CECOR (Centro de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis). Atualmente é coordenador do iLAB - Laboratório de Documentação Científica por Imagem, situado no CECOR/EBA/UFMG; coordenador do Estúdio de Fotografia da Escola de Belas Artes e coordenador do PrismaLAB - Laboratório de Fotografia Técnica e Científica. É Lider do Grupo de Pesquisa no CNPq: Imagem Científica.

Publicado

2026-09-14